Antes mesmo da primeira garfada, muitos consumidores já decidiram o que vão comer com base no que viram nas redes sociais. A avaliação é da chef brasileira Cândida Batista, que atua em uma cozinha selecionada pelo Guia Michelin em Viena, na Áustria, e acompanha de perto as mudanças no comportamento dos clientes dentro dos restaurantes.
Segundo ela, a influência da imagem sobre as escolhas gastronômicas não é um fenômeno novo, mas ganhou força com a popularização de plataformas como Instagram e TikTok. Nesse ambiente, pratos com apresentações marcantes disputam a atenção dos usuários em um fluxo constante de conteúdos.

Para a chef, a aparência dos pratos passou a ocupar um papel central na experiência gastronômica. Muitas vezes, a decisão de consumo acontece antes mesmo da chegada ao restaurante, impulsionada por fotografias e vídeos que circulam nas redes.
“É muito comum ver pessoas fotografando a comida antes mesmo de experimentar. Em alguns casos, a decisão já foi tomada muito antes de chegarem ao restaurante. A imagem cria uma expectativa e desperta uma vontade quase imediata de consumir aquilo”, afirma.
Algoritmos influenciam tendências gastronômicas
Na avaliação de Cândida, os algoritmos das plataformas digitais passaram a exercer influência direta sobre hábitos alimentares em diferentes partes do mundo. Receitas e preparações ganham visibilidade rapidamente, alcançam milhões de usuários e passam a integrar cardápios de restaurantes em diversos países.
Segundo a chef, esse movimento ocorre em ciclos cada vez mais rápidos. Uma tendência pode dominar as redes por semanas e, logo depois, ser substituída por outra novidade que passa a ocupar o mesmo espaço.
Ela destaca, porém, que o problema não está no uso das redes sociais, mas na possibilidade de a experiência gastronômica ser desenvolvida prioritariamente para gerar imagens de impacto.
“A apresentação faz parte da gastronomia e sempre vai ser importante. O prato precisa ser bonito, mas não pode existir apenas para a foto. Quando a aparência se torna mais importante do que o sabor, a gastronomia deixa de ser experiência e passa a ser apenas imagem”, analisa.
Experiência vai além da fotografia
De acordo com a profissional, mesmo nos restaurantes de alto padrão existe uma preocupação crescente com o aspecto visual dos pratos. Ainda assim, ela considera que fatores como aroma, textura, técnica e equilíbrio permanecem centrais na construção da experiência gastronômica.
Para Cândida, esses elementos não podem ser reproduzidos integralmente por meio de fotografias ou vídeos. A imagem pode despertar interesse, mas não substitui a experiência de degustação.
“Uma imagem pode despertar curiosidade, mas ela não consegue reproduzir o que a pessoa sente quando prova um prato pela primeira vez”, afirma.
A chef observa que a valorização da estética não elimina a necessidade de qualidade na execução das receitas, especialmente em estabelecimentos que buscam construir uma relação duradoura com seus clientes.
Internet ampliou acesso à gastronomia
Apesar das críticas ao peso das redes sociais nas decisões de consumo, Cândida reconhece que as plataformas digitais também ampliaram o acesso ao conhecimento gastronômico.
Segundo ela, receitas, ingredientes e técnicas que antes circulavam principalmente entre profissionais do setor passaram a alcançar um público mais amplo. Esse movimento contribuiu para despertar interesse por diferentes culturas e incentivar mais pessoas a cozinhar.

A chef acredita que a tecnologia pode funcionar como uma ferramenta de aproximação entre consumidores e gastronomia, desde que não substitua a experiência presencial.
“A foto pode despertar a vontade de conhecer um prato, mas não deveria ser o principal motivo para escolhê-lo. Se a melhor parte da refeição acontece na tela do celular e não à mesa, talvez estejamos esquecendo que comida foi feita para ser vivida, não apenas fotografada”, afirma.
Fonte: catracalivre.com.br