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O que fazer na Serra Catarinense além de esperar pela ‘neve’

13 de junho de 2026 | 22:26
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A Serra Catarinense ainda preserva características cada vez mais raras em destinos turísticos brasileiros: paisagens pouco alteradas, municípios de pequeno porte, propriedades rurais abertas à visitação e uma rotina distante do turismo de massa. Em uma região marcada por história, campos de altitude, cânions, araucárias e estradas sinuosas, a hospitalidade do interior se combina com uma oferta crescente de experiências ligadas à natureza e ao enoturismo.

Grande parte dos brasileiros associa a Serra Catarinense ao inverno. É nesse período que as imagens da neve em São Joaquim ou da cascata congelada em Urupema ganham espaço nos telejornais e nas redes sociais. As temperaturas negativas transformaram a região em um dos principais destinos de frio do país e ajudaram a consolidar sua imagem turística.

Mas limitar a visita aos meses mais frios significa deixar de conhecer parte importante do que o planalto serrano oferece. Nas outras estações, as condições climáticas favorecem a exploração de áreas naturais, mirantes e estradas cênicas. Trilhas por cânions, cavalgadas, passeios em veículos 4×4, rapel, escaladas e visitas a cachoeiras estão entre as atividades disponíveis em diferentes municípios.

A conectividade também ampliou o acesso à região. Lages, principal cidade da Serra Catarinense, funciona como porta de entrada para os visitantes. Além da malha rodoviária que conecta o sul do país, a cidade conta com voos da Gol que ligam a região a São Paulo, facilitando o deslocamento de turistas interessados em roteiros de natureza, turismo rural e vinhos de altitude.

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A Gol tem três voos por semana entre São Paulo e Lages
A Gol tem três voos por semana entre São Paulo e Lages – Márcio Diniz/Catraca Livre

Lages como ponto de partida

Maior município da Serra Catarinense, Lages concentra parte da infraestrutura de serviços da região e ocupa posição estratégica para quem pretende percorrer diferentes cidades do planalto. Historicamente ligada ao tropeirismo, a cidade preserva referências desse período em seu patrimônio cultural e em suas tradições rurais na Coxilha Rica.

O Salto Caveiras, localizado a cerca de 20 quilômetros do centro, é um dos atrativos naturais de Lages
O Salto Caveiras, localizado a cerca de 20 quilômetros do centro, é um dos atrativos naturais de Lages – MSM Imagens/ Lucas Centenaro/ Toninho Vieira

No centro urbano, os principais pontos de visitação incluem o Centro Cultural Vidal Ramos e a Catedral Diocesana de Nossa Senhora dos Prazeres, construída em pedra polvilhada no século 19. O município também reúne hotéis, restaurantes e serviços que costumam servir de apoio para quem segue viagem rumo aos destinos serranos.

Coxilha Rica é um dos cantinhos da Serra Catarinense que merece ser desbravados
Coxilha Rica é um dos cantinhos da Serra Catarinense que merece ser desbravados – Márcio Diniz/Catraca Livre

No entorno rural, as fazendas históricas desempenham papel importante no desenvolvimento do turismo regional. Muitas delas abriram suas portas para visitantes interessados em conhecer a rotina do campo, participar de atividades ligadas à vida rural e experimentar pratos tradicionais preparados com ingredientes locais.

Boqueirão Hotel Fazenda, em Lages, é referência no turismo rural há quase 40 anos
Boqueirão Hotel Fazenda, em Lages, é referência no turismo rural há quase 40 anos – Márcio Diniz/Catraca Livre

A gastronomia baseada no pinhão, semente da araucária que se tornou um dos símbolos da região, aparece com frequência nos cardápios e reforça a ligação entre turismo, cultura e produção agrícola.

Urubici concentra natureza e aventura

Entre os municípios mais procurados da Serra Catarinense, Urubici reúne alguns dos cenários naturais mais conhecidos do planalto. A cidade abriga o Morro da Igreja, local onde foi registrada a menor temperatura oficial do Brasil em 1996, -17,8°C. Dali é possível observar a Pedra Furada, formação rochosa localizada dentro do Parque Nacional de São Joaquim.

Cânion Espraiado, em Urubici (SC)
Cânion Espraiado, em Urubici (SC) – Nuture/iStock

Em dias de céu limpo, a vista alcança áreas situadas a mais de 100 quilômetros de distância. O acesso ao Morro da Igreja é gratuito, mas requer agendamento prévio junto ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Neblina cobre a pousada Serra Bela
Neblina cobre a pousada Serra Bela – Márcio Diniz/Catraca Livre

Outro destaque é o Parque Cascata do Avencal, onde uma queda d’água de aproximadamente 100 metros pode ser observada a partir de mirantes instalados na borda do cânion. O espaço também reúne atividades como cavalgadas, rapel, tirolesa e passeios de pedalinho.

Vale a pena acordar cedo para contemplar o amanhecer em Urubici no outono
Vale a pena acordar cedo para contemplar o amanhecer em Urubici no outono – Márcio Diniz/Catraca Livre

Na mesma região está a Cascata Véu de Noiva, que despenca por uma parede de rocha basáltica em uma queda de cerca de 65 metros. O roteiro inclui ainda o Morro do Campestre, conhecido pelas formações de arenito e pelas vistas sobre o Vale do Rio Canoas, além da Serra do Corvo Branco, estrada cercada por paredões rochosos que figura entre os trajetos mais fotografados da região.

Para quem busca experiências de aventura, o Ecoparque Cachoeira Papuã oferece passarelas suspensas e passeios de skybike sobre um penhasco a 150 metros de altura. O crescimento do enoturismo também alcançou o município, que passou a integrar a rota do vinhos de altitude por meio de empreendimentos que combinam vinhedos, hospedagem e experiências gastronômicas.

São Joaquim une vinhos e tradição agrícola

Conhecida nacionalmente pela produção de maçãs, São Joaquim transformou as características do clima e da altitude em aliadas para o desenvolvimento da vitivinicultura. Com áreas acima de 1.200 metros de altitude, o município tornou-se referência na produção de vinhos finos de altitude.

Igreja Matriz de São Joaquim
Igreja Matriz de São Joaquim – Divulgação/Setur

As condições de solo, a amplitude térmica e o período prolongado de maturação das uvas contribuíram para o crescimento de um setor que hoje figura entre os principais atrativos turísticos locais. Vinícolas passaram a estruturar programas de visitação que incluem degustações, passeios guiados e experiências gastronômicas.

A Leone di Venezia transporta o visitante diretamente para as vilas do norte da Itália
A Leone di Venezia transporta o visitante diretamente para as vilas do norte da Itália – Divulgação

Entre os empreendimentos que recebem visitantes estão a Villa Francioni, conhecida pela arquitetura voltada ao processo produtivo por gravidade; a Vinhedos Monte Agudo, que promove degustações e refeições harmonizadas; e a Leone di Venezia, especializada em variedades de origem italiana.

No centro da cidade, o roteiro costuma incluir a Praça João Ribeiro e o Parque Nacional da Maçã. Durante os períodos de frio intenso, o chafariz da praça frequentemente registra congelamento parcial, fenômeno que se tornou uma das imagens associadas ao inverno serrano.

Bom Jardim da Serra e os cenários dos cânions

Localizada na borda do planalto, Bom Jardim da Serra marca a transição entre as áreas elevadas da Serra Catarinense e o litoral do estado. O município abriga um dos cartões-postais mais conhecidos do Brasil: a Serra do Rio do Rastro.

Vista da estrada que serpenteia a Serra do Rio do Rastro
Vista da estrada que serpenteia a Serra do Rio do Rastro – Márcio Diniz/Catraca Livre

O mirante da rodovia SC-390 oferece vista panorâmica para as curvas que descem a encosta da serra e atraem visitantes durante todo o ano. A estrada é considerada uma das mais cênicas do país e faz parte dos principais roteiros turísticos catarinenses.

Neve em Bom Jardim da Serra, próximo a cascata da Barrinha, em julho de 2021
Neve em Bom Jardim da Serra, próximo a cascata da Barrinha, em julho de 2021 – Marlon Sá Molim/Prefeitura Municipal de Bom Jardim da Serra

Bom Jardim da Serra também funciona como base para passeios aos cânions da região. Entre eles estão o Cânion das Laranjeiras, acessado por roteiros em veículos 4×4, e o Cânion do Funil, cercado por campos de altitude e paredões rochosos.

Nos últimos anos, a cidade ampliou sua estrutura de hospedagem e passou a integrar também o circuito dos vinhos de altitude, com produtores que investem em espumantes e rótulos elaborados em áreas de clima frio.

Urupema aposta na altitude e na tranquilidade

Com altitude média superior a 1.400 metros na área urbana, Urupema figura entre os municípios mais elevados do Brasil. A cidade ganhou projeção nacional pelas imagens de geadas intensas, temperaturas negativas e pelo fenômeno do sincelo, quando a neblina congela ao entrar em contato com árvores e estruturas expostas ao frio. Tanto é que o munícipio carrega desde 2021 o título de Capital Nacional do Frio.

Paisagem coberta por sincelo, fenômeno associado a dias com nevoeiro, quando a temperatura varia de -2°C a -8°C
Paisagem coberta por sincelo, fenômeno associado a dias com nevoeiro, quando a temperatura varia de -2°C a -8°C – Marcelo Pagani/Diretoria de Turismo da prefeitura de Urupema

O principal ponto de visitação é o Morro das Antenas, situado a aproximadamente 1.750 metros de altitude. Durante o inverno, o local costuma concentrar visitantes interessados em observar os efeitos das baixas temperaturas sobre a paisagem.

Pausa para aquela foto clássica de todo turista em Urupema
Pausa para aquela foto clássica de todo turista em Urupema – Márcio Diniz/Catraca Livre

Mas Urupema também vem se destacando como um dos principais destinos de observação de aves da Serra Catarinense. Entre março e junho, milhares de papagaios-charão (Amazona pretrei), espécie ameaçada de extinção, chegam à região em busca dos pinhões produzidos pelas araucárias. O espetáculo das revoadas atrai observadores, fotógrafos e pesquisadores de diferentes partes do país. Estima-se que mais de 20 mil aves passem pela região durante o período migratório, transformando os céus do município em um dos mais importantes cenários de observação da espécie no Brasil.

A presença dos papagaios deu origem ao Festival dos Papagaios, realizado anualmente em abril, reforçando a ligação entre conservação ambiental e turismo de natureza. Fora da estação mais fria, Urupema revela um perfil voltado para o turismo de contemplação e para a vida no campo. O ritmo mais tranquilo, as áreas rurais preservadas e os espaços para observação de aves atraem viajantes em busca de contato com a natureza.

A cidade também integra os roteiros que percorrem diferentes municípios da Serra Catarinense, funcionando como complemento para quem deseja explorar as paisagens de altitude da região sem se limitar aos meses de inverno.

São José do Cerrito revela um patrimônio arqueológico pouco conhecido

Enquanto a maior parte dos visitantes percorre a Serra Catarinense em busca de cânions, cachoeiras e vinhos de altitude, São José do Cerrito começa a chamar atenção por um patrimônio ligado à ocupação humana do planalto muito antes da chegada dos colonizadores europeus.

O município abriga um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do Sul do Brasil. Em áreas rurais, especialmente na comunidade de Rincão dos Albinos, pesquisadores identificaram dezenas de estruturas conhecidas como casas subterrâneas, construídas por povos Jê Meridionais há cerca de 1.100 anos. Escavadas abaixo do nível do solo, essas habitações ajudavam a proteger seus moradores das condições climáticas da região.

Réplica da casa subterrânea que está sendo construída pela prefeitura de São José do Cerrito
Réplica da casa subterrânea que está sendo construída pela prefeitura de São José do Cerrito – Márcio Diniz/Catraca Livre

São José do Cerrito concentra a maior quantidade dessas estruturas já registrada no país e recebeu os títulos de Capital Catarinense e Capital Nacional das Casas Subterrâneas. Estudos arqueológicos apontam que o município preserva um dos conjuntos mais representativos desse tipo de sítio, com vestígios que ajudam a compreender a ocupação indígena do planalto serrano ao longo de séculos.

Ilustração mostram como eram as casas subterrâneas no Cerrito
Ilustração mostram como eram as casas subterrâneas no Cerrito – Divulgação/ADREL

O potencial turístico do patrimônio arqueológico vem sendo estruturado por meio de projetos de visitação e interpretação histórica. A proposta é transformar as casas subterrâneas em um novo eixo de turismo cultural da Serra Catarinense, ampliando a oferta da região para além dos atrativos naturais e do turismo de inverno.

*Jornalista viajou a convite do Conserra (Conselho de Turismo da Serra Catarinense)

Fonte: catracalivre.com.br

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