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Uma garota de alma ferida tenta fugir do próprio destino, mas é forçada a se encontrar com seu propósito, como um corpo puxado pela gravidade rumo ao núcleo de um planeta. Supergirl (2026) é um filme de luta — a luta de alguém contra o que pensa de si mesma e contra o que os outros esperam dela. Por outro lado, é também um filme que não luta o suficiente para encontrar a si mesmo.
Kara não é Clark Kent. Ela não vê problema em ferir ou matar. Não é aberta como o primo, tampouco solar. Na verdade, prefere o sol vermelho, sob o qual pode sentir a vida de verdade — ou, ao menos, é no que ela gostaria de acreditar. O motivo da diferença? Clark tem o coração leve. Ele cresceu cercado de amor na Terra e, mesmo destinado a ser um conquistador de mundos, escolheu servir e viver como um de nós. Um sábio que entende que a verdadeira grandeza está em viver em sintonia com o ambiente. O mundo de Kara, no entanto, jamais conheceu a sintonia. Ela nasceu no caos, em um fragmento da própria casa que, com o tempo, envenenou seu povo e matou todos que conhecia. Seu coração é pesado, e ela não deseja esse fardo para ninguém. Por isso, por mais que finja indiferença, acaba criando uma afinidade imediata com Ruthye, uma garotinha que também perdeu tudo. Elas são quase iguais, mas Kara fará o que for necessário para que a jovem não termine com o coração tão pesado quanto o seu.


História familiar? É preciso dizer que Supergirl é uma síntese um tanto apressada da HQ A Mulher do Amanhã. A boa notícia é que o coração da obra está ali. O núcleo emocional de Kara e Ruthye sustenta a jornada, em parte pelo texto de Ana Nogueira, mas principalmente por como Milly Alcock e Eve Ridley funcionam juntas. Vale destacar que Milly domina o papel com tanta imponência que é capaz de elevar qualquer companheiro de cena. Não à toa, suas poucas cenas com David Corenswet são destaques no longa, mostrando dois grandes atores elevando o nível um do outro. É fácil prever que a DC Studios usará essa dupla repetidas vezes em projetos futuros, pois se há algum legado a ser celebrado pelo segundo filme do estúdio, é o de ter permitido esse longo exercício de Milly no papel.
Não havia muito como errar no roteiro do filme, pois ele já partia de um ponto de referência excelente. A Mulher do Amanhã, de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes, é um clássico moderno da DC Comics. Ana Nogueira captura a essência emocional e temática da HQ e adiciona camadas criativas de construção de mundo — especialmente pela variedade de alienígenas e costumes de cada planeta —, dando real peso ao lado cósmico desse novo universo. Como foi dito amplamente durante a divulgação, Supergirl tem, de fato, um bom roteiro — e falo isso consciente de que roteiro é diferente de história. Mas ter um bom roteiro basta?
Para falar a verdade, essa é uma discussão antiga nas rodas de cinema. Há cineastas, como James Gunn, que afirmam que o roteiro é o elemento mais importante de um longa. Há, entretanto, quem discorde. Claro, um bom texto é o primeiro requisito para a realização de uma grande obra, mas cinema é uma arte audiovisual, que depende crucialmente da imagem e do som para evocar sentimentos. Isso inclui ter noção de ritmo, domínio de espaço e saber o que mostrar e quando mostrar, além de quais sons usar para complementar o que está impresso em tela. Embora não dependam só dele, essas são atribuições que passam diretamente pelo crivo de um diretor. Boas engrenagens não garantem o bom funcionamento de uma máquina se o motor é falho. Para Supergirl, isso significa que a escolha por Craig Gillespie se provou um tanto infeliz.


Não que Craig seja um diretor ruim. Seu currículo com Eu, Tonya (2017) e Dinheiro Fácil (2023) não me deixa mentir. Ele é competente. Cumpriu os cronogramas que a DC lhe deu — Supergirl teve uma produção tranquila, embora a pós-produção tenha sido conturbada (vale lembrar a notícia de que o longa passou por 10 exibições-teste, algo bastante incomum). O problema real é que o filme carece de energia. A ação foi pensada para ser um espetáculo, mas é executada tão de qualquer forma, com o abuso de um traveling vazio, que passa despercebida. Por limitações de orçamento, a sequência de ação final dependia muito de que o dinamismo ganhasse destaque e fosse o foco. Em vez disso, há tanta indiferença em planos de câmera lenta e uma escolha musical tão ruim que a nossa percepção se volta apenas para uma tela poluída por um marrom artificial.
É aparente que este filme enfrentou uma montagem muito difícil. O início parece um corte de última hora, condensado ao máximo para que a alma da trama — a jornada das duas protagonistas — comece antes que o público desista da sessão. O ritmo é sacrificado, o que se torna um problema, pois esta é uma história que precisava ser sentida aos poucos. Ao mesmo tempo, é compreensível a decisão dos produtores de acelerar o passo, já que simplesmente não há energia no que está impresso em tela nos primeiros 20 minutos. Cada cena apenas está ali, em planos estáticos que não incomodam nem impressionam. Eles só existem.
Mas isso significa que o filme é feio? Não, e esse é o ponto mais lamentável. Os trabalhos de direção de arte, design e fotografia são interessantes, revelando o claro esforço desses departamentos. As engrenagens estão brilhando, mas não conseguem rodar em sintonia porque a mão do diretor é ausente ou indiferente. A montagem até tenta manipular o tom com a trilha sonora — tanto a partitura original quanto as músicas pop —, mas, honestamente, acaba piorando o resultado.


Seria leviano da minha parte afirmar que Craig Gillespie não queria estar ali ou que trabalhou no filme à força, mas é o que parece. Se não for esse o caso, talvez seu grande problema tenha sido a insegurança diante da pressão de fazer um blockbuster de gente de capa dar certo em meio à fadiga do subgênero. Seja como for, o resultado na tela é um trabalho apático e hesitante por parte do diretor, e essa falta de vigor acaba contaminando a tela.
Não há como dar os primeiros passos sem cometer alguns tropeços, e Supergirl é um tropeço do DCU. Diria até que se trata de um enorme desperdício de potencial. Se há outro legado que o segundo longa do estúdio deixa para James Gunn e companhia, é o de que o currículo não deve ser o único pré-requisito na escolha de quem lidera os projetos da franquia. É preciso energia, força de vontade e alguma conexão real com o projeto. O público está cada vez mais exigente com produções de super-heróis e sente quando algo, por mais especial que tenha sido idealizado, resulta em uma obra comum. E o filme de Craig Gillespie é exatamente isso: qualquer coisa.
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Fonte: ovicio.com.br