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Mortal Kombat 2: Qual a diferença entre dublar um filme e um jogo? Voz de Johnny Cage explica

23 de junho de 2026 | 14:25
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Estimated reading time: 13 minutos

Mortal Kombat 2 (2026) está finalmente disponível nas principais plataformas digitais de compra e aluguel do Brasil, e isso nos inspirou a ir atrás de algumas curiosidades sobre os bastidores da dublagem do longa para o português, que trouxe alguns dos principais dubladores da franquia dos games para as telas. Um deles foi Marcelo Salsicha, que falou com o nosso Bruno Gomes sobre como criou uma nova versão para Johnny Cage, após anos o dublando com uma abordagem mais descontraída.

Um Johnny Cage diferente

Karl Urban em Mortal Kombat IIKarl Urban em Mortal Kombat II
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Se você conhece a franquia de jogos e já viu algum material de divulgação do filme (ou o próprio longa), sabe que o Johnny Cage interpretado pelo ator neozelandês Karl Urban é bem diferente dos games. “No MK X, 11 e 1, ele é mais fanfarrão e piadista. No filme, com a abordagem do Karl Urban, a pegada é outra. Ele está mais velho, um pouco mais acabadão, naquela descendente de quem faz tudo por um mínimo de fama. Ele tenta ser engraçadinho, mas não é um ‘Zé Graça’ igual ao Kano. Tive que trazer um tom um pouco mais grave, menos expansivo, e acabou dando muito certo“, diz Marcelo.

Pode-se dizer que o histórico de papéis de Urban causou uma desconfiança nos fãs sobre como isso iria funcionar, já que o astro é mais famoso por seus personagens sisudos. Bem, o filme encontrou uma forma de fazer dar certo, mas isso ainda representava um desafio para Marcelo. O dublador precisou desvencilhar a imagem do ator das dinâmicas que ele já possui com outras vozes consagradas no mercado nacional.

O Karl Urban já teve vários dubladores marcantes no Brasil, mas eu penso mais no personagem. O Johnny Cage dele não tem nada a ver com o Billy Bruto ou o McCoy“, explica Marcelo. “Eu gosto muito do que o Alexandre Moreno faz no Star Trek e acho o Reginaldo Primo perfeito em The Boys, mas cada papel pede uma dinâmica. O Karl Urban é o rei das franquias, e o fato de mudar a voz para essa nova faceta dele funciona. De primeira, eu não imaginaria ele no papel — pensaria em alguém com o perfil do Van Damme ou do Linden Ashby. Achei estranho no começo, mas depois de fazer o trailer vi que tinha caroço nesse angu e que daria muito certo“.

A diferença do trabalho em relação aos jogos, entretanto, não se resumiu apenas ao arquétipo diferente do personagem. Tecnicamente, dublar o filme foi outra experiência.

Diferentes prazos, diferentes referências

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Reprodução/NetherRealm

Existe um abismo entre os dois formatos de dublagem. Um longa-metragem oferece um escopo visual fechado e linear para o profissional trabalhar, de forma que todo o processo pode ser finalizado em apenas um ou dois dias. “No meu caso, eu demorei uns dois dias. Foram dois dias bem quebradinhos porque o leque de personagens no filme é bastante aberto. Se eu estivesse com a voz 100% boa e os horários encaixassem perfeitamente, daria para ter matado tudo em um único dia de estúdio“, declarou.

Nos games, por outro lado, há uma dinâmica fragmentada e de longo prazo, onde o dublador muitas vezes trabalha completamente às cegas, sem qualquer apoio visual da cena finalizada. O ator descreve que a gravação para jogos é um processo de paciência e adaptação constante aos cronogramas de entrega das desenvolvedoras.

Demora bastante, é um processo bem mais longo“, admite Marcelo sobre o trabalho nos games. “As desenvolvedoras vão fazendo o jogo em pedacinhos, então eles costumam soltar o material por lotes. Eles finalizam uma parte do jogo, mandam para a localização, a gente grava; depois de um tempo, fica pronto mais um trecho e mandam de novo. Dependendo do tamanho e do escopo do jogo, esse processo de idas e vindas ao estúdio pode levar de seis meses até dois anos“.

Esse isolamento visual transforma a dublagem de um jogo de luta em um exercício puro de sincronia matemática e imaginação. Basicamente, o profissional precisa atuar olhando apenas para as frequências sonoras em softwares de edição, já que é raríssimo receber materiais com a captura de movimentos finalizada. “Na maioria das vezes a gente dubla no escuro, olhando só para a Wave no Pro Tools. Ou você faz um sound sync para ficar exatamente na mesma toada e tempo do áudio original em inglês, ou faz uma fala que precisa terminar junto com o tempo estipulado.“, declarou.

É muito raro mandarem as cutscenes completas. Quando mandam, às vezes vem um modelo 3D bem inicial, meio malfeito, mas que serve como um guia excelente para você ver a linguagem corporal do personagem“, continuou Marcelo. “O mais curioso é quando mandam os arquivos de motion capture. Você vê uma tela dividida: em um canto está o plano geral dos atores reais no estúdio vestindo aquela roupa cheia de bolinhas; no outro, o personagem em 3D já na cena; e em outro, a câmera bem colada na cara do ator. Quando vem esse material completo é maravilhoso, um mamão com açúcar, porque é só olhar direto para a boca do personagem e encaixar a dublagem. Mas, infelizmente, é raríssimo acontecer“.

Por dublar Johnny Cage há tanto tempo em trabalhos longos como os games, Marcelo tem uma relação muito próxima com o personagem, quase como se fosse um amigo. Logo, não é difícil prever que ele está ansioso para descobrir quando vai reencontrá-lo.

O retorno da franquia nos games pode demorar

Mortal Kombat 2 ganha teaser com Johnny Cage; Trailer sai amanhã (17)Mortal Kombat 2 ganha teaser com Johnny Cage; Trailer sai amanhã (17)
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Sabemos que não há nenhum movimento em curso para o lançamento próximo de um novo Mortal Kombat e, mesmo que houvesse algo em segredo, Marcelo não poderia falar sobre o assunto. No momento, o dublador entende que deve demorar um pouco até que possa participar de um novo jogo da franquia.

Como um fã assíduo que consome jogos de luta desde o início dos anos 90, Marcelo analisou o que acredita que serão os próximos anos da franquia, dizendo: “Como consumidor de jogos de luta — e não como insider, porque não sei de nada dos bastidores —, acho que um próximo Mortal Kombat deve demorar um pouco por causa das mudanças [que Ed Boon pretende fazer na franquia]. Eles mudaram muita coisa no MK 1, talvez precisem resgatar elementos anteriores. Eu acharia sensacional se lançassem um Injustice novo no meio do caminho. Sou fã de super-heróis e o trabalho da NetherRealm com personagens convidados via DLC é espetacular. Imagina o Johnny Cage aparecendo como convidado em um novo Injustice? Eu jogo Mortal desde o fliperama em 1992, então se ele voltar em qualquer projeto, estarei torcendo para retornar ao papel“.

Por enquanto, tanto Marcelo quanto os fãs terão que se contentar com Mortal Kombat 2 que, embora não tenha sido uma unanimidade de crítica e nem arrecadado rios de dinheiro, conquistou a comunidade. O retorno foi o bastante para a Warner Bros. considerar a continuidade da franquia nos cinemas. Inclusive, o terceiro filme já está em desenvolvimento, trazendo Jeremy Slater (roteirista do segundo longa) de volta aos roteiros.

Leia também sobre Mortal Kombat:

Perguntas e respostas

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Entrevista realizada via videoconferência

Você dublou o Johnny Cage nos jogos. Como foi fazer essa transição para o cinema? Isso ajudou na construção ou foi um trabalho do zero?

Como são mídias diferentes, nem sempre o personagem do jogo tem a mesma voz no cinema. Mas o Diego (Lima, o diretor de dublagem) quis ver o que dava para encaixar. O Johnny do filme é bem diferente dos games. No MK X, 11 e 1, ele é mais fanfarrão e piadista. No filme, com a abordagem do Karl Urban, a pegada é outra. Ele está mais velho, um pouco mais acabadão, naquela descendente de quem faz tudo por um mínimo de fama. Ele tenta ser engraçadinho, mas não é um “Zé Graça” igual ao Kano. Tive que trazer um tom um pouco mais grave, menos expansivo, e acabou dando muito certo.

O Karl Urban é conhecido por papéis sérios e sisudos (The Boys, Dredd). Muita gente torceu o nariz quando ele foi anunciado. Você ficou surpreso com a escalação?

O Karl Urban já teve vários dubladores marcantes no Brasil, mas eu penso mais no personagem. O Johnny Cage dele não tem nada a ver com o Billy Bruto ou o McCoy (de Star Trek). Eu gosto muito do que o Alexandre Moreno faz no Star Trek e acho o [Reginaldo] Primo perfeito em The Boys, mas cada papel pede uma dinâmica. O Karl Urban é o rei das franquias, e o fato de mudar a voz para essa nova faceta dele funciona. De primeira, eu não imaginaria ele no papel — pensaria em alguém com o perfil do Van Damme ou do Linden Ashby. Achei estranho no começo, mas depois de fazer o trailer vi que tinha caroço nesse angu e que daria muito certo.

Quantos dias leva, mais ou menos, para dublar um longa-metragem como Mortal Kombat 2?

No meu caso, eu demorei uns dois dias. Foram dois dias bem quebradinhos porque o leque de personagens no filme é bastante aberto. Se eu estivesse com a voz 100% boa e os horários encaixassem perfeitamente, daria para ter matado tudo em um único dia de estúdio.

E nos videogames? O processo de trabalho é muito mais extenso ou dura mais ou menos esse mesmo tempo?

Nos games demora bastante, é um processo bem mais longo. As desenvolvedoras vão fazendo o jogo em pedacinhos, então eles costumam soltar o material por lotes. Eles finalizam uma parte do jogo, mandam para a localização, a gente grava; depois de um tempo, fica pronto mais um trecho e mandam de novo. Dependendo do tamanho e do escopo do jogo, esse processo de idas e vindas ao estúdio pode levar de seis meses até dois anos.

Além do tempo, a falta de referências visuais na hora de gravar os jogos também dificulta o trabalho?

Sim, na maioria das vezes a gente dubla no escuro, olhando só para a Wave (gráfico da onda de áudio) no Pro Tools. Ou você faz um sound sync para ficar exatamente na mesma toada e tempo do áudio original em inglês, ou faz uma fala que precisa terminar junto com o tempo estipulado. Como é áudio in-game, você não está necessariamente vendo a cara do personagem ou ele batendo boca com alguém.

É muito raro mandarem as cutscenes completas. Quando mandam, às vezes vem um modelo 3D bem inicial, meio malfeito, mas que serve como um guia excelente para você ver a linguagem corporal do personagem. O mais curioso é quando mandam os arquivos de motion capture (captura de movimentos). Você vê uma tela dividida: em um canto está o plano geral dos atores reais no estúdio vestindo aquela roupa cheia de bolinhas; no outro, o personagem em 3D já na cena; e em outro, a câmera bem colada na cara do ator. Quando vem esse material completo é maravilhoso, um mamão com açúcar, porque é só olhar direto para a boca do personagem e encaixar a dublagem. Mas, infelizmente, é raríssimo acontecer.

O Ed Boon anunciou recentemente que vai mexer na franquia nos games. O que você espera ou sabe sobre o futuro do Johnny Cage daqui para frente?

Como consumidor de jogos de luta — e não como insider, porque não sei de nada dos bastidores —, acho que um próximo Mortal Kombat deve demorar um pouco por causa dessas mudanças. Eles mudaram muita coisa no MK 1, talvez precisem resgatar elementos anteriores. Eu acharia sensacional se lançassem um Injustice novo no meio do caminho. Sou fã de super-heróis e o trabalho da NetherRealm com personagens convidados via DLC é espetacular. Imagina o Johnny Cage aparecendo como convidado em um novo Injustice? Eu jogo Mortal desde o fliperama em 1992, então se ele voltar em qualquer projeto, estarei torcendo para retornar ao papel.

*As perguntas e respostas foram levemente editadas para uma melhor fluidez na leitura.

Fonte: ovicio.com.br

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